A noite já ia alta. Vagabundava pelas ruas, transpirado do calor que o dia tinha deixado para trás e que prometia prolongar-se até ao próximo dia. Não prestava atenção por onde andava ou quem por lá caminhava. Estava perdido nas suas ideias, no seu sofrimento interno sem se preocupar com o seu destino ou o destino dos que o cercavam indiferentes ao ar louco que emanava por todos os seus poros. Perdia-se por vezes a olhar para a lua no alto que parecia sorrir para si mas nem a misteriosa amante celeste parecia hoje o cativar. A sua comiseração parecia ser mais intensa que qualquer outro tipo de sentimento. Sentia-se preso a um sentimento que ansiava perder ou esquecer mas que parecia estar-lhe a explodir no peito, ameaçando rebentar as suas amarras imaginárias e desfazer o seu pobre coração deixando estendido na rua a sangrar para a sua morte. A verdade é que não sabia como lidar com aquele sentimento de perda e de solidão. Toda a sua vida eram sentimentos que o haviam acompanhado mas aprendera a esquecer apesar de não deixar de sentir e avançar com a sua vida. Até ao momento em que o conheceu. Recordava com carinho esses dias felizes em que tudo parecia certo mesmo que apenas por estar embriagado de paixão. Conheceram-se pela internet como tantos outros mas daquela vez não quis saltar imediatamente para o carnal. Decidirá levar com calma e tomar café no sitio onde costuma tomar. Sentia-se mais confortável em ter o controlo num local que para si era habitual. O sol já se punha qual ele chegou. No inicio não parecia que iria dar em nada, apenas mais um rapaz, apenas mais um encontro. Mas algo nele o tinha cativado. Talvez o seu ar normal. O seu ar masculino. A calma com assumia o controlo da sua vida e com a serenidade que a honestidade de não esconder quem era lhe conferia. As roupas leves e soltas que usava, de algodão, largas, que esvoaçavam ao vento, cabelo curto escuro, estatura média, magro. Cara bonita. Atraente. Era um tipico tradicionalista. Contou-lhe alguns detalhes mais da sua vida, como era agarrado a algumas tradições que apesar de suas não o aceitavam por inteiro, recusavam a parte que para si era mais importante. O coração. Mas já havia aprendido a lidar com esse conflito. Não deixava de ser quem era nem deixava de cumprir as suas tradições. Quebrava barreiras e padrões tantas vezes errados e falsos. Seguia a sua vida com a moral que a vida lhe havia ensinado a cumprir. O que o seu coração lhe dizia como certo e não como as religiões decadentes e cheias de luxuria, com regras estipuladas mas que facilmente quebravam para seu próprio beneficio. Aprendera a ler as pessoas e a interpretar os sinais. Aprendera a ler os sinais do seu meio envolvente e a decidir por si mesmo o que era errado e o que era correcto como resultado das consequências das acções de cada um e não pelo que alguém decide como divino por mais cruel que possa ser. Não acreditava na crueldade. Isso era algo que o puxara para si. Lembrava-se ainda do primeiro beijo, do primeiro calor que o percorrera o tocar no seu corpo. E com a mesma força agora, a correr as ruas da cidade, transpirado, parecia que o seu coração queria sair do peito e fugir para não ter que aguentar a dolorosa ideia que tudo aquilo tinha acabado. Sentia-se apático e longe de si mesmo. Sentia-se a flutuar por cima de si mesmo comentando consigo mesmo a tristeza que era tanta comiseração sem necessidade.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
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